27 de fevereiro de 2006

Carnaval



E cá estamos, é mais um carnaval
De Pierrots e Colombinas no salão
De serpentinas, confetes e coisa e tal
Meninos pobres no farol com pés no chão
Vão desfilando as tristezas na avenida
Mostrando o luxo e a riqueza das escolas
Porque a vida já chegou no seu limite
A realidade é insúportável, de tão triste
Reinventar uma alegria é preciso
A nostalgia é abafada na folia
Fingir que o mundo é só satisfação
Eis o que faz, no carnaval, esse povão
Na quarta-feira a vida volta ao seu normal
A vida rola, não há como segurar
E quando a fome novamente apertar
Segura a onda, o carnaval já vai chegar
Leila Abreu/2006

POEMA QUÂNTICO


Sou um terrível assassino,
um suicida, uma besta quadrada,
um insensato elevado ao infinito,
um demônio, um anjo divino,
um imbecil qualquer, um gênio, um macaco,
milhões de átomos, um ser, um planeta, uma galáxia,
o finito ou o infinito, a verdade ou a mentira, um verso tonto, ingênuo — ou a Poesia!
Tudo é função do estado mais provável de ser no tempo,
com todas as incertezas das palavras!
(Fernando Pessoa)

Medo




Quando você me beijou daquele jeito
Me invadindo a boca com tua lingua doce
Perscrutando sem pudor todo o meu ser
Despertando em mim essa vadia
Essa louca desvairada em pleno dia
Que te assanha e te devora em ondas
E te lanha as costas de prazer
Não mediu nenhuma consequência
Não atinou prá minha incoerência
Não queria, mas no fundo eu sabia
Sabia o quão breve seria
Que essa coisa de paixão é uma fria
Quando a gente pensa que tá quente
Vem o outro e tira o barato da gente
Joga a água fora da bacia
E encerra no melhor momento
Quando tudo é quase sentimento
Procurei então não me iludir
Mas o coração é um bicho muito chato
Quando gruda é que nem carrapato
E não entende nada de ceder
Agora eu passo as horas te querendo
Fazendo tudo prá te enlouquecer
Teu corpo é prá mim religião
É tudo que desejo, obsessão
Me diga logo se também me quer
Me tira dessa angústia, sou mulher
Ao menos tente um pouco entender
Fazer minhas vontades de te ter
Mas se isso for algo impossível
Me ensina urgentemente a te esquecer
Leila Abreu/2006

25 de fevereiro de 2006

Dias e Dias


Existem dias de sorrir
Existem dias de chorar
Existem dias de sair
Existem dias de ficar
Existem dias de amar
Existem dias de sofrer
Existem dias de viver
Existem dias de morrer
Existem dias de ganhar
Existem dias de perder
Existem dias de falar
Existem dias de calar
Existem dias de tentar
Existem dias de se recolher
Porque na vida existem dias
Existem dias de saber
Que existem dias de sonhar
Sonhar só prá sobreviver
Leila Abreu/2006

17 de fevereiro de 2006


Meu sentimento pousou em tua janela
Vagou em teu jardim, chamou por ti
E não ouvindo éco, nem resposta
Voou e se escondeu, desiludiu
Talvez ele retorne a te buscar
Em nova tentativa de encontrar
Os sentimentos são seres persistentes
Pelejam porque trazem em seus peitos
O gosto bom dos amores ardentes
Leila Abreu/2006

Ignorância


Não sei.
Ou sei.
Deveria saber.
Mas não sei se sei,
Se posso saber.
Só sei que saberia,
Se soubesse.
Mas como não sei...
Continuarei a não saber.
Leila Abreu/2006

16 de fevereiro de 2006


A saudade nunca passa
É a lembrança de um amor intenso
Que na minha louca vida passou
Como um furacão destruidor
Meu coração inteiro arrebatou
E levou todo o sentimento
Deixando essa dorzinha incômoda
Que bate todo dia, à mesma hora
Vazio grande dentro do meu peito
Saudade triste de quem foi embora
Leila Abreu/2006

7 de fevereiro de 2006

The end


Menina dos teus olhos, sou
Menino dos meus olhos, és
Se te procuro, vais
Se me procuras, fui
É um eterno desencontro
Você e eu
Eu e você
Desejos vãos, desejos vens
Se te encontro, vais
Se me encontras, não me tens
Às vezes choro e você ri
As vezes rio e você chora
Se te desejo, tu vais dormir
Se me desejas, já fui embora
Amor me diz, me fale agora
Já não é hora de assumir?
Dizer adeus, fazer as malas
Pegar a estrada, voltar pro mundo?
Essa paixão já não existe
Já é passado, história triste
Vamos sair, nos dar a chance
Experimentar novas nuances
A liberdade já nos espera
Já não há nada nessa quimera
E o que existiu, já não existe
Já é saudade, já era....
Leila Abreu/2006

Prisioneira


Ah....esses versos que pulam sobre o papel
Não são meus, nunca serão
São versos da moça triste
Inquilina da minha alma
Posseira deste coração
Poetisa expatriada
Que usa meu pobre corpo
Prá seus versos expressar
Escreve os dissabores
As dores de seus amores
Às vezes me faz chorar
Moça triste da minha alma
Meus sentidos sabe usar
Prá desaguar seus receios
Seus sonhos e devaneios
Sem medo de se entregar
Me faz sua prisioneira
Não me permite negar
Guarida pro seu cantar
Dela já não posso fugir
Pois que mora aqui dentro
Invadiu meu pensamento
Tolhindo meu ir e vir
É como uma possessão
Me tira a liberdade
E a vontade de sorrir
Já não posso distinguir
Se estes versos são os meus
Ou se é ela novamente
Vagando em minha mente
Me obrigando a fingir
Que sou eu a poetisa
Sofrida e sofredora
Aquela que chora as mágoas
De estar presa em sua masmorra
Leila Abreu/2006




"Toda a vida não vivida ficará latejando dentro de você, invivida por toda a infernidade". (Nietzsche)

5 de fevereiro de 2006

Desenlace

O que antes ardeu em chamas
Hoje é cinza a se apagar
Foi tão doce, tão bacana
Hoje é nada, não engana
Não me chama prá dançar
A mudança foi chegandoS
e alastrando sem parar
Nossos olhos se fecharam
Por medo, por covardia
Por cansaço de brigar
Dores minhas, dores tuas
Eram feridas a sangrar
De repente, só o vazio
Só a vontade de acabar
De repente, aquele adeus
Sem discussão, sem aflição
Algumas palavras secas
Mas sem frases de efeito
Como manda a educação
Assim termina uma história
Cada qual no seu caminho
Novos abraços, novos beijos
Tantos planos a sonhar
Só nos resta essa certeza
Nunca desistir de amar.
Leila Abreu/2005

Lembrança

Os dias passam
E eu não te esqueço
Capto telepáticamente, por um segundo, teu pensamento
Está vazio de mim.
Esquecestes?
Direciono a mente a outros interesses
Tentativa inútil em me dispersar.
Percebo então, tristemente,
Que nunca mais outra vez.

Leila Abreu/2005

Fui!

Quero gritar ao mundo que fui embora de ti.
Com a simplicidade de um pingo de chuva caindo em uma folha,
fui embora de ti.
Fechei, para sempre, a porta de acesso a você.
Travei todas as janelas da contemplação,
ativei todos os alarmes.
E fui embora de ti.
Algumas lágrimas caíram no emvelope que ficou sobre a mesa
delatando assim, alguma dor.
Talvez não precise mais avisar ao mundo o meu adeus
Meus olhos trarão, por algum tempo, a derradeira saudade.

Leila Abreu/2005

Vale à pena?

Com o tempo,
Perdi a noção do que é "valer à pena".
Vale à pena viver em contradição com o que se acredita?
Talvez sim, talvez não.
Passam as horas,
Vão-se os anos.
Num minuto estou feliz
No outro, sinto-me serena
De repente, debulho-me em lágrimas
Quão complicado é existir!
Tenho vontade de dormir prá sempre
e sonhar que tudo vale à pena
Senão, prá que viver?
Leila Abreu/2005

Coração Louco Varrido

Ah coração maluco
Que mais vc quer?
Bate forte por um ser
Que pertence a outro ser
E não te vê como mulher?
Veja se sossega aí no peito,
Pára de se apaixonar
Dê um basta ao romantismo
E me deixa trabalhar.

Leila Abreu/2006

Insanidade Temporária

Um dia,
Quando todos forem embora,
Não vou chorar.
Sentada em uma calçade de uma rua qualquer,
Segurando o queixo com as mãos
Sentindo o sol aquecer meus cabelos
Tantas lembranças vão chegar
E tomar conta de mim.
E é aí, neste exato ponto da minha vida
que vou me arrepender de tudo o que não fiz
E levantar correndo prá voltar no tempo
Na tentativa insana de inventar você outra vez.

Leila Abreu/2006

3 de fevereiro de 2006

Dói mas é bom



Se eu me curar desse amor
Como vou sobreviver?
De onde virá a inspiração
Prá meus versos escrever?
Essa paixão me dá vida
É oxigênio, é comida
Me deixa conectada
Sonhando, mas acordada
Se eu deixar de te amar
Ou se você prá mim voltar
Sobre o que vou escrever?
O que irá me inspirar?
Paixão é coisa que inspira
É o que dá graça à vida
O elo com a loucura
É dor da forma mais pura
Mas é também o que enriquece
A alma de quem padece
De amor, essa insanidade
Envolta nessa verdade
De querer viver sofrendo
Mesmo que o mundo desabe
Mesmo que esteja doendo
Leila Abreu/2006